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HISTÓRIA · FIGURAS

«Irmãos de raça»: o combate que nunca aconteceu

5 MIN DE LEITURA

Outubro de 1909: Cyriaco desafia toda a companhia de lutadores internacionais, todos recusam, exceto um: Dierry, o senegalês. A imprensa anuncia um duelo entre «irmãos na raça». Nunca terá lugar. A razão está numa frase de Cyriaco, a mais moderna de toda a sua história

POR QUE ESTE ARTIGO

Entre o triunfo de 1.º de maio e a morte de 1912, o mito nada conta. As fontes, por seu lado, contam: um desafio lançado a gigantes de mais de cem quilos, uma demonstração perante os campeões, e uma declaração à imprensa que faz de Cyriaco o primeiro capoeira a reivindicar publicamente o estatuto, e o salário, de um atleta profissional.

O desafio aos gigantes

Cyriaco assiste ao combate Smykal–Dierry, a primeira luta livre da capital. Perante esta forma de duelo tão próxima da capoeiragem, fica «agradavelmente surpreendido», e vê logo «uma nova oportunidade de combater profissionalmente». A 8 de outubro de 1909, a meio do campeonato, desafia toda a companhia de lutadores. Meça-se a audácia. Estes campeões pesam todos mais de cem quilos, muito mais do que o professor de jiu-jitsu que derrubou em maio. «Mas, seguro da sua técnica e armado de uma confiança inabalável, não via nisso qualquer argumento contra si.» A sua reputação precedeu-o: todos os campeões de luta recusam. Todos, exceto um.

Dierry aceita

Aquele que aceita o desafio é Dierry N'Diage, o senegalês de estilo atípico, conhecedor da luta do seu país, primeiro combatente da luta livre, e cuja técnica fora várias vezes comparada à dos capoeiras. Um adversário de eleição sob todos os aspetos. E a imprensa retém mais um parâmetro: como Cyriaco, é negro. A Imprensa anuncia um combate entre «irmãos na raça». Um capoeira crioulo de Campos contra um lutador do Senegal, num teatro do Rio, sob as regras abertas da luta livre nascente: todo o Atlântico Negro contido nesse cartaz. O combate é marcado para 11 de outubro.

A demonstração de 9 de outubro

Na véspera do prazo, a 9 de outubro, após o último combate da noite, Cyriaco sobe à arena, não para combater, mas para mostrar: «mostrou aos lutadores o jogo nacional e a sua defesa consequente, a destreza do crioulo provocando admiração e entusiasmo.» A cena condensa o novo estatuto da disciplina: «A capoeiragem era agora ao mesmo tempo um desporto competitivo disputado entre as quatro cordas de um ringue ou no meio de uma arena, e um espetáculo admirado de um lugar nas bancadas.» Mas Cyriaco não veio divertir a galeria. Veio promover o seu combate, e fixar as suas condições.

A frase que tudo parou

Perante os representantes da imprensa reunidos, declara: «Cyriaco ‹o lutador› brasileiro declarou, no círculo dos representantes da imprensa, que sem estar financeiramente garantido, não subiria ao ‹ringue› do Concerto Avenida para combater com […] Dierry.» Sem garantia, sem combate. O pedido não deu em nada. O duelo dos «irmãos na raça» nunca teve lugar.

Pode ler-se este episódio como um encontro falhado. Deve ler-se como uma declaração de existência: os campeões europeus com quem convive são assalariados, enquadrados, garantidos; Cyriaco exige o mesmo tratamento, ser pago pela sua arte, como eles. O herói de 1.º de maio recusa ser uma atração gratuita. E a sua demonstração de 9 de outubro trabalhou, ainda assim, «um pouco mais para o reconhecimento da capoeiragem no meio dos desportos de combate».

O homem que resume meio século

A tese dá à sua trajetória a sua justa medida: «Cyriaco permitiu-se todas as extravagâncias: combater um professor de jiu-jitsu ou um campeão de luta, demonstrar a sua destreza dentro de um teatro perante uma assembleia de jornalistas e espectadores ou numa faculdade de medicina, e ensinar capoeiragem a jovens da burguesia carioca. Só ele resume o caminho percorrido pela disciplina durante a primeira metade do século XX.»

Solicitado a «sistematizar o jogo de modo a formar uma escola eficiente», é detido pela doença e morre em 1912. Os jornalistas saúdam então «um dos mais característicos representantes da nossa capoeiragem clássica». Alguns meses mais tarde, levado por essa auréola, o segundo campeonato de capoeiragem abre no Circo Spinelli. O combate dos irmãos na raça não teve lugar. Mas a frase de Cyriaco permanece, a mais moderna de toda a sua história: sem garantia, não subo.

FONTES

Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro): «Luta Romana», A Imprensa, 9 out. 1909 («irmãos na raça»; declaração à imprensa); «Lucta Romana. Grande campeonato internacional», O Paiz, 8 out. 1909; «O Cyriaco», O Paiz, 19 maio 1912; «O ‹Moleque Cyriaco›. Sua morte», Gazeta de Noticias, 19 maio 1912. Pederneiras, R., «O jogo da capoeira», Jornal do Brasil, 28 jun. 1931. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. A.2–A.3.

NO CORPUS

→ O campeão que se recusou a lutar contra um homem negro

→ A noite em que todos os golpes foram permitidos

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. «Irmãos de raça»: o combate que nunca aconteceu. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 27. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/irmaos-de-raca-o-combate-que-nunca-aconteceu [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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