Black Combat Arts Institute.
HISTÓRIA · TÉCNICA
A roda ou o ringue: a escolha oculta de um regulamento de 1928
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Quando «Zuma» codifica a capoeiragem como desporto moderno, faz uma escolha que ninguém já nota: o seu espaço de combate não é um ringue, mas um círculo. Por detrás dessa geometria, toda uma civilização do combate
POR QUE ESTE ARTIGO
Pode tudo, numa prática, ser modernizado sem trair aquilo que a funda? O caso Burlamaqui responde com factos, e fornece a prova histórica do conceito que rege o corpus: a redefinição fiel. Retifica também uma data na literatura: 1940, e não 1968, para o primeiro regulamento oficial que adota o ringue.
«Não tem nem regra nem método»
Em 1928 aparece no Rio um livro cujo título é um programa: Gymnastica nacional (capoeiragem) methodisada e regrada. O seu autor, Annibal Burlamaqui, conhecido por Zuma, é movido por uma convicção nacionalista: «Ah, como seria belo se todos os verdadeiros brasileiros tomassem a iniciativa de a aprender, de estudar os mais pequenos segredos que este jogo puramente brasileiro possui.»
O seu diagnóstico cabe numa palavra: a ausência de organização. Apesar de vinte anos de movimento a favor da arte de combate nacional, ela nada conta perante o boxe inglês e o futebol. «A capoeiragem, como todos sabem, tem muitos anos; contudo, não tem nem regra nem método. Aqueles que têm a fortuna de a conhecer não pensaram, até agora, em metodizá-la, em dar-lhe regras […] Eu, portanto, brasileiro que sou, amando o que me pertence, concebi uma regra para a apresentar, e para dela fazer um desporto.»
Codificar para existir. A sobrevivência da prática passa pela sua posta em regras. Desde que a posta em regras não traísse aquilo que codificava. Ora tudo em Burlamaqui faz dele um herdeiro mais do que um inventor, e as provas são textuais. Parte do seu livro é idêntica às declarações de Lothus e Aleixo publicadas na imprensa em 1916. Copiou o manual inteiro de O.D.C. entre os muros da Biblioteca Nacional. E entrevistado já em 1925, detalhou sob capa de anonimato as técnicas dos velhos capoeiras, rasteira, rabo de arraia, tranco, pentear, chincha, nomes e descrições retomados no livro de 1928. «A nomenclatura técnica era por vezes diferente, mas os gestos eram os mesmos.» A sua codificação não inventa. Transmite.
Uma modernidade sem resto, quase
Leiam-se as regras de 1928: assinalam todas as casas da racionalização desportiva moderna. Um espaço delimitado, medido. Uma perfeita igualdade à partida. Um juiz «reconhecido como competente e imparcial». Um tempo regulamentar, ao fim do qual o homem que mais caiu é declarado vencido, critério que consagra, uma vez mais, a centralidade do desequilíbrio no jogo. Até à escolha do terreno, cuidadosamente motivada: «de preferência um campo de futebol […] porque a relva amortece as quedas e não retém pó.» Pragmatismo, segurança, higiene.
Nada, em aparência, distingue esta capoeiragem codificada dos outros desportos modernos. Nada, exceto um elemento.
A forma do espaço
Burlamaqui mantém o círculo. E a razão da escolha toca o fundamento: «As lutas e danças africanas praticavam-se dentro de uma roda: um espaço fechado sobre si próprio, produzido pela e destinado à comunidade. Burlamaqui, é certo, abriu este espaço aos espectadores, mas manteve a forma geométrica inicial.» Na mais completa modernização que a capoeiragem alguma vez conheceu, um único elemento escapa à revisão. E é precisamente aquele que transporta a herança.
Que a escolha não era evidente, prova-o o que se seguiu. O projeto da Federação Brasileira de Pugilismo adotou um ringue de boxe, já em 1940, o que constitui uma retificação trazida pela tese: o primeiro regulamento decidido por um órgão desportivo oficial data de 1940, e não de 1968 como quer a literatura. A querela reacendeu-se nos simpósios do Rio de 1968–1969, onde a questão opôs vivamente os professores cariocas, favoráveis ao ringue, e os seus homólogos baianos. O círculo e o ringue foram, durante décadas, os dois termos de uma escolha disputada.
E a escolha compromete mais do que uma preferência de disposição. O ringue, quadrilátero, cordas, cantos, é o espaço do duelo ocidental moderno: isola os lutadores do mundo e entrega-os ao puro frente-a-frente. O círculo é o espaço das rodas africanas, o batuque descrito por Lothus, a futura roda, o lawonn guadalupense: envolve o duelo na comunidade que o observa, dá-lhe ritmo e garante-o. Escolher a forma do espaço era escolher de que civilização de combate a capoeiragem desportiva herdaria.
A redefinição fiel
Ao manter o círculo no próprio coração da sua modernização, Burlamaqui realizou, sem o teorizar, aquilo a que a tese chama uma redefinição fiel: inovar nas regras, preservar a estrutura profunda. O seu gesto de 1928 é a prova pela geometria de que se pode mudar tudo numa prática, as suas regras, o seu juiz, o seu terreno, o seu tempo, sem trair nada daquilo que a funda.
É a verificação histórica do deslocamento teórico que rege o corpus: as tradições não sobrevivem apesar das suas redefinições. Sobrevivem por elas.
FONTES
Coleções da Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro): Burlamaqui, A., Gymnastica nacional (capoeiragem) methodisada e regrada, Rio de Janeiro, 1928; Falção, I., «Esplendôr e decadencia da capoeiragem», Careta, 14 nov. 1925; Lothus, R. e Aleixo, M., imprensa carioca, 1916. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. D.1–D.3.
NO CORPUS
→ A capoeira teve mestres e manuais muito antes do seu «renascimento» oficial
→ A capoeira não foi «inventada», foi reescrita, uma e outra vez
COMO CITAR ESTE ARTIGO
MALO, Olivier. A roda ou o ringue: a escolha oculta de um regulamento de 1928. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 12. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/a-roda-ou-o-ringue-a-escolha-oculta-de-um-regulamento-de-1928 [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.